Este blog foi criado para contar a história de bravura deste lindo anjo.
João Pedro nasceu com Hérnia Diafragmática Congênita (HDC) e permaneceu neste plano por apenas 28 horas. E neste pouco tempo que ele passou por aqui, deixou um linda lição de amor, força e garra.
Ele é com certeza um Anjo Guerreiro.


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A notícia da HDC

Minha gravidez seguia bem, adorava quando as pessoas me perguntavam como eu estava e finalmente eu podia dizer tranqüila que estava tudo ótimo, que estava só esperando a chegada do meu gurizinho valente. Porque isso que ele era, um GERREIRO VALENTE. Passar por todas essas dificuldades e riscos ainda antes de nascer e mesmo assim resistir, só mesmo sendo muito forte. A minha amiga Vivi, que seria uma das dindas dele, sempre se referia a ele como “Guerreiro da Dinda”.

A essa altura da gestação já tínhamos comunicado quem seriam os padrinhos. Ia ser um monte, pois decidimos convidar as nossas irmãs. Então seriam as duas irmãs do Amaral, a Daia e a Deisi e as minhas duas irmãs, a Glaucia e a Vivi que é a minha irmã de coração. Como a Glaucia e a Deisi não são casadas, convidamos meus primos Filipe e Dudu, que são como meus irmãos,  para fazer par com elas. O Claudio acompanharia a Daia e o Eder acompanharia  Vivi. Uma criança com 4 casais de padrinhos não tem como não ser amada, e isso não faltava pro João Pedro. Amor é o que ele mais tinha, e ainda tem.

Eu estava lá pelas 25 semanas e nesta fase ele se mexia muito. Dava cada chute e soco que chegava ser engraçado. Ele já reconhecia nossas vozes e bastava o Amaral chegar do trabalho pra ele começar a rebolar dentro de mim. A gente conseguia brincar com ele. Era só dar uma cutucadinha na barriga que ele respondia com um chute ou soquinho. Ele adorava música alta, e quando tocava o dance ”Panamericano” o guri só faltava sair pela minha boca de tanto que se mexia. Gostava também de música gaudéria (puxou muito pelos pais), era só tocar uma vaneira que ele saia dançando. As vezes eu e o Amaral colocávamos música em casa e nós 3 dançávamos juntos. Difícil eu não me emocionar quando lembro desses momentos. Vivemos tantas coisas lindas juntos. Éramos íntimos de mais, mesmo ele estando na minha barriga, e por causa dessa intimidade, começou a surgir a curiosidade em saber com quem ele seria parecido.

Marcamos então para fazer a eco 3D, onde poderíamos ver o rostinho dele e ter a sensação dele mais perto da gente. A eco foi agendada para dia 19/10, semana em que eu retornaria ao trabalho, já que tudo estava bem.

Chegou o dia tão esperado. Fomos eu, o Amaral e a minha mãe para a clínica. Enquanto estávamos esperando me chamarem, ficamos brincando com ele. Minha mãe ainda não tinha sentido ele se mexendo, mas naquele dia ele mexeu muito quando ela colocava a mão na minha barriga. Sempre quando eu ia fazer eco, eu comia chocolate antes, pois ele ficava mais agitado e se mexia bastante.

Entramos na sala do exame e minha mãe não queria perder um momento. Até bateu foto de mim e do Amaral posicionados na maca. Todos estávamos muito ansiosos. O médico era um amor, tinha um sotaque de gringo que eu adorei, falava bem calmo e ria com a gente. Logo que o médico colocou a sonda na minha barriga, o danadinho se mexeu e foi possível ver todo o braço, inclusive a mãozinha dele fazendo um “certinho” pra gente. O médico seguiu fazendo o exame e logo pudemos ver o rostinho do JP. Como o médico mesmo disse, ele tava um exibicionista, pois dava pra ver direitinho, com todos os detalhes. Mas não conseguíamos definir com quem ele se parecia, pois de frente era a cara do Amaral e de perfil parecia muito comigo. Era realmente uma mistura de nós dois.

Estávamos tão contentes com aquele momento que nada poderia me deixar mal, nem mesmo a notícia que o médico me daria logo a seguir.

Imagem da mãozinha fazendo "certinho".

Imagens em 3D da face em diversos ângulos

Certa hora, o médico ficou tempo de mais examinando a mesma parte. Eu não entendia porque ele media várias vezes a circunferência da barriga e comecei a ficar angustiada, mas logo ele me falou, com a maior cautela do mundo, que ele estava medindo várias vezes pois estava percebendo uma pequena alteração. Ele disse que todas as outras medidas apontavam pra um bebê com 27 semanas (exatamente o tempo que eu estava), mas que a dimensão da barriguinha dava pra 25 semanas. Então ele me disse que isso era compatível com Hérnia Diafragmática,  me mostrou que o estômago do João Pedro estava localizado no tórax, deslocando um pouco o coração para a direita e por isso a barriguinha dele estava menor do que deveria. Aí eu perguntei pra ele o que era isso e o que deveria ser feito. Ele me disse então que eu deveria conversar com minha obstetra para que ela me orientasse, pois provavelmente meu filho precisaria de uma cirurgia logo que nascesse.

Por incrível que pareça eu não fiquei nervosa. O médico foi tão cauteloso e tranqüilo pra me dar a notícia que passou essa tranqüilidade pra mim. Enquanto eu estava na sala de espera aguardando o cd com as imagens, percebi que minha mãe estava tensa, e eu ainda disse pra ela ficar tranqüila que isso não devia ser nada, a final, conhecia muitas pessoas que tiveram hérnia e nunca tiveram nada de mais.

Pegamos o cd e o laudo e viemos embora. Deixei minha mãe na casa dela e vim pra minha casa pra colocar as fotinhos no Orkut, pois todo mundo tava curioso pra ver a carinha dele. Nem me preocupei em pesquisar na internet o que era a tal Hérnia Diafragmática (graças a Deus não fiz isso), pois pra mim isso não era nada. Pela primeira vez em toda a gravidez eu não fiquei nervosa com uma possibilidade de problema. No outro dia fui trabalhar de manhã e de tarde fui na minha gineco mostrar o exame pra ela. Como foi um horário de encaixe, o Amaral não conseguiu chegar a tempo pra ir comigo, então fui sozinha.

Chegando lá, minha gineco já me olhou meio atravessada, pois não era época de eu ir consultar. Então falei pra ela que tinha feito uma eco 3D e que tinha aparecido uma Hérnia Diafragmática e eu precisava saber o que era isso. Então ela me olhou com os olhos arregalados e me disse com essas palavras “isso é um bucha”. Quando ela me disse isso, quase caí da cadeira e perguntei “como assim?”.
Daí ela me explicou que a hérnia era um furinho no diafragma, mas que neste caso não era m furinho e sim um “rombo”, e que por esse rombo os órgãos do abdome subiam para o tórax e não deixavam espaço para o pulmão crescer e sem pulmão ele não ia respirar e podia morrer assim que nascesse.

Dá pra imaginar o que é ouvir que teu filho pode morrer assim que nascer????? Eu não sabia o que pensar, nem chorar eu consegui. Não sei seu eu tava mais apavorada com a notícia ou com a forma como ela me deu a notícia.

Ela abriu o notebook na sala e foi pesquisar na internet artigos pra me dar como base (se fosse só isso eu mesma podia ter feito em casa). Quando ela encontrou o artigo, olhou pra mim e disse “se é pra falar a verdade, vou ser sincera: só tem 60% de chance de sobrevida”. Eu não sabia o que fazer, não tinha reação pra nada. Lembro de ter perguntado pra ela o que eu poderia fazer e ela me disse que eu tinha que encontrar uma boa UTI Neo Natal e um bom cirurgião Pediátrico. Pedi pra ela indicações e ela me disse que não tinha ninguém pra me indicar. Ela me deu um pedido de eco morfológica e eco cardio e pediu que eu voltasse assim que os exames estivessem prontos.

Saí do consultório como se e estivesse voando. Não sabia o que eu fazia, nem o que pensava nem pra onde ia. Até que um anjo colocou no meu caminho a Dra Raquel Lobato. Ela é uma médica amiga da minha mãe e trabalha no mesmo prédio da minha gineco e acabamos nos encontrando no elevador quando eu estava saindo do consultório. Quando ela me viu com a cara de pavor que eu tava me perguntou o que estava acontecendo e eu desabei. Então ela me disse que eu não me preocupasse que ela ia me indicar um ótimo cirurgião.

Agradeci e sai em direção a lugar nenhum. Eu não tinha rumo, até que me atinei a pegar um táxi e ir pra casa da minha mãe. Quando cheguei lá, nós duas nos abraçamos e choramos muito. Minha mãe fez o que eu não fiz. Quando eu deixei ela em casa, no dia anterior ela foi direto pesquisar na internet, e encontrou as piores coisas possíveis. Porque é isso mesmo, na internet  só se acha informações dos piores casos e da pior maneira possível. Então minha mãe e minha irmã já estavam sabendo do problema pela pior fonte, mas não sei o que foi pior, se elas verem isso tudo na internet ou se eu receber a notícia daquele jeito pela minha gineco.

Logo o Amaral chegou e contei pra ele e ele caiu em desespero. Nós chorávamos sem parar. Eu não conseguia me conformar e me perguntava: por que comigo? Eu tinha certeza que seria uma boa mãe. A única coisa que eu queria era poder ter meu filho e isso estava ameaçado. Minha revolta era que muitas tinham a oportunidade de ter filhos e colocavam no lixo, jogavam no rio, amarravam em sacola e tocavam fora. Eu jamais faria isso. Sonhava com o momento de ter meu filho nos braços mas estava diante de uma grande barreira. Não queria acreditar naquilo tudo.

Eu simplesmente abandonei meu trabalho. Liguei pra lá, contei o que estava acontecendo e disse que não voltaria mais. Depois eu ia me preocupar como ia fazer com o trabalho, mas naquele momento não havia condições de eu ir trabalhar.

Naquele dia nem tive coragem de ir pra casa e fiquei na casa da minha mãe. Meu pai estava viajando e minha mãe teve que falar pra ele por telefone. Ele tentou não se desesperar e se apegou muito na fé.  Minha irmã chegou da faculdade de noite e estava em desespero. Assim que me viu me abraçou e começou a chorar. No início nos revoltamos muito com Deus, achando que ele não era justo com a gente, mas ainda bem que mais tarde conseguimos mudar essa visão. Eu e o Amaral passamos a madrugada chorando, eu não consegui dormir nada.

No dia seguinte começamos a maratona de tentar encontrar um cirurgião e marcar os exames que minha gineco tinha solicitado. E aí começou uma nova batalha...

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A segunda batalha

Depois de vencida a primeira batalha , voltei a trabalhar e tentar seguir minha vida normalmente.

Tudo era novidade no meu trabalho, as pessoas me dando os parabéns, querendo saber do bebê, eu tendo que me adaptar com o sono que uma gravidez causa entre outras coisas... mas também tiveram coisas não muito boas. Assim que retornei do meu período de afastamento soube que minha área havia se desmanchado: os dois analistas que trabalhavam comigo pediram demissão e minha estagiária quando soube que eu estava afastada pediu pra sair, ou seja, quando voltei estava retomando meu trabalho porém com pessoas novas no setor, sendo que eu mal as conhecia. Trabalhei  uns 10 dias sob um stress terrível, tendo que colocar o trabalho atrasado em dia e ainda me adaptar com as mudanças de pessoal. Um belo dia, depois de uma reunião muito tensa com meu diretor, fui ao banheiro e para meu pavor havia novamente sangue na minha calcinha. Me desesperei e pensei “ah não, de novo não”. Corri em direção a uma colega minha e pedi que ela me levasse ao hospital. Ela me levou no Centro Clínico que fica perto do trabalho do Amaral, assim ele poderia me acompanhar, só que não consegui atendimento lá pois não tinha obstetra de plantão, saímos de lá direto pra Santa Casa, mas não conseguimos atendimento porque estava demorando em média 2 horas para passar pela triagem. Então liguei para a minha gineco pra que ela me orientasse e ela então mandou que eu fosse direto no consultório.

Chegando no consultório ela me examinou e disse que eu estava com a placenta baixa, como eu não entendi, pedi que ela me explicasse. Então ela me disse que normalmente, em relação ao útero, a placenta se localiza no lado tendendo para cima, mas a minha estava totalmente em baixo do útero e isso tinha um risco muito alto de com o peso do útero, a placenta se descolar, se soltar e causar a perda do bebê. E esse risco aumentaria cada vez mais com a evolução da gestação, pois cada vez o útero ficaria mais pesado. Ela me disse também que esse problema normalmente é solucionado nturalmente lá pela 24ª ou 25ª semana de gestação e eu recém estava na 12ª, então novamente teria que ficar em repouso absoluto pra não correr risco de forçar um descolamento de placenta, já que nas ecos anteriores era possível ver um hematoma devido a descolamentos que já haviam acontecido.

Lá estava eu então, de repouso absoluto (nessas horas, dane-se o trabalho) quando um belo dia, de madrugada, fui ao banheiro e estava meio dormindo quando percebi que meu absorvente estava totalmente ensopado e quando fiz xixi senti uma coisa saindo de dentro de mim e fazendo um barulho de “ploft” na água do vaso. Não estava entendendo o que estava acontecendo, mas gritei pro Amaral que veio até mim e tentou me acalmar. Levantei, olhei no vaso e era só sangue. Com o cabo da escovinha de limpar vaso mexi na água a fim de descobrir o que era aquilo que tinha saído de mim, e quando consegui ver fiquei em pânico... era uma coisa enorme, com aparência de bife de fígado. Na minha ingênua ignorância, aquilo era a placenta que tinha descolado e eu tinha perdido meu bebê. Entrei em desespero, comecei a chorar e corremos imediatamente para o hospital. Isso era por volta das 4 da madrugada e quando chegamos no Mãe de Deus não havia ninguém na recepção da emergência, chamamos, esperamos uns 10 minutos e nada. Eu estava apavorada, então pedi pro Amaral ir entrando na recepção até encontrar alguém pra nos atender. Então depois disso me encaminharam para a maternidade. Lá me examinaram e disseram que aquilo que saiu de dentro de mim era um coágulo de sangue e que fariam uma ecografia pra confirmar se estava tudo bem com o bebê.

O médico que foi realizar a eco devia estar dormindo, pois chegou na sala do exame de cara inchada e todo escabelado. Ele me examinava e não falava nada, eu não consegui ver a tela da eco, a angustia era muito grande, até que pude ver o Amaral sorrir e me dizer que o bebê estava se mexendo. Graças a Deus, que alívio. Mas o resultado do exame não era muito bom pois havia descolado uma parte da placenta e por isso eu deveria permanecer totalmente em repouso. Tudo bem, repouso absoluto, só que por causa de tanto ficar parada meu corpo começou a parar também. Meu intestino não funcionava e com isso tive crises de hemorróidas, simplesmente horrível.

Desta vez o Amaral tirou férias pra ficar em casa comigo, pelo menos nos primeiros dias. Eu só ficava em casa. Só saía pra ir na gineco ou fazer exames.

Neste período fiz a eco de transluscência nucal, que serve para identificar se o bebê teria alguma deficiência neurológica, principalmente síndrome de down. O resultado do exame foi ótimo. Não mostrou nada que pudesse indicar algum tipo de problema. Pelo contrário: o médico disse que minha placenta parecia que estava se inclinando para cima e que em algumas semanas já estaria totalmente na posição correta, além de ter nos dito que pelo que viu, nos dava 30% de certeza de ser um menino. “Se isso aqui não é um pinto, eu não sei o que é”, foi assim que o médico nos falou.
Nossa, quanta felicidade. Mesmo o percentual sendo pequeno, eu sabia que era um menino. Saímos da clínica ligando pra todo mundo e o mais emocionante foi quando liguei pro meu pai. Ele chorou muito e me agradeceu pelo neto homem. Como meu pai só teve meninas, o sonho dele era ter um neto, pra fazer com ele tudo que ele não pode fazer comigo e com minha irmã.

Os dias seguiram e eu de repouso, até que minha placenta pudesse ficar no lugar certo.  Nesta fase já o chamávamos pelo nome e meu pai já estava montando um álbum e colecionando figurinhas da Copa pra mostrar pro João Pedro o grande acontecimento do ano em que ele foi gerado.

Com 20 semanas fiz a ecografia morfológica, que serve para medir os membros e órgãos do bebê e identificar possíveis mal formações físicas. Exame perfeito. Nada de anormalidades, o bebê estava no tamanho e peso adequados para o período da gestação, todos os membros completos e órgãos visivelmente no lugar certo, além de minha placenta estar quase toda em cima, diminuindo ao máximo a chance de um aborto.

Tudo era felicidade, finalmente as coisas estavam entrando nos eixos. Então resolvemos que esse era o momento para o Amaral fazer a cirurgia de redução de estômago que já estava planejada.  Ele tinha que fazer isso antes do João Pedro nascer, senão depois eu não ia ter como cuidar dos dois.

Tudo certo, cirurgia feita, até que o médico me chamou e disse que tinha encontrado um tumor no intestino do Amaral durante a cirurgia. Meu Deus, mais isso....  não bastasse toda a minha preocupação com a gravidez, lidar com essa notícia do tumor não foi fácil. Mas graças a Deus deu tudo certo, era benigno e não teve outras complicações. A partir dali o Amaral estava pronto pra aguardar a chegada do JP (assim que a gente chamava ele de vez em quando).

Depois da função do Amaral no hospital, voltei no consultório da minha gineco pra uma consulta de rotina e quando ela me examinou disse que parecia que eu estava com o colo do útero curto. Então ela me explicou que se isso se confirmasse, eu teria que fazer uma micro cirurgia, dar uns pontos no útero pra poder agüentar a gravidez até final, pois eu estava com apenas 23 semanas e se houvesse rompimento do útero, dificilmente o JP iria sobreviver. Novamente o mundo caiu na minha cabeça e mesmo com toda a tensão que eu estava, minha gineco me disse que se isso estivesse acontecendo, era porque eu tinha entrado na fila dos problemas. Vê se pode, ela ainda conseguia “brincar” numa hora dessas.

Saí do consultório e fui imediatamente fazer uma eco. Pra se considerar que o colo do útero está curto, ele deve medir menos do que 2cm, o meu estava medindo 2,34cm. Não estava abaixo, mas também não tinha uma folga muito grande. Precisava observar. Fiz outra ecografia em 15 dias mas ele se manteve estável, o que era considerado muito bom.

Até que em fim eu poderia ter vida normal, voltar a trabalhar, em fim, curtir minha gravidez que já tinha passado da metade. Iniciamos o cursinho de gestantes no hospital Mãe de Deus, onde em princípio o João Pedro nasceria. Estava vendo um equipe pra filmar o parto pois queria tudo o que tinha direito. Só não estava arrumando o quartinho porque iríamos nos mudar em dezembro, então faria tudo na casa nova, já que a previsão de parto era dia 11/01/11 (bela data).

Mas a felicidade e tranquilidade durou pouco...


Eco que mostrou nitidamente que era um menino...

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A primeira batalha

Depois de contar pra família, ainda precisava viajar a trabalho durante uma semana antes de fazer a primeira eco. No dia 11/05 parti de Porto Alegre para SP para ministrar um treinamento. No mesmo dia, à noite, segui de SP para Campinas onde daria o mesmo treinamento no dia seguinte. Ministrei o treinamento na empresa e por volta das 18 horas estava no aeroporto de Viracopos quando resolvi ir ao banheiro antes de entrar no avião. Levei um susto: havia sangue na minha calcinha. Fiquei desesperada e imediatamente liguei para minha ginecologista. Ela disse que eu não devia me assustar, que sangramentos são comuns nos 3 primeiros meses, mas que eu deveria observar pra ver se não aumentaria de volume. Tentei me acalmar. Fui então de Campinas para Belo Horizonte e do aeroporto direto para o hotel onde fiquei em repouso.

Naquela noite eu e o Amaral nos falamos por MSN mas eu não podia falar nada pra ele, pois ele ficaria muito preocupado. Eu estava apavorada, mas precisava me manter calma. Na manhã seguinte, quando acordei para seguir minha maratona de treinamentos o volume de sangue tinha aumentado muito. Fiquei sem chão, sem saber o que fazer. Liguei então para uma colega de trabalho, expliquei a situação e logo ela chegou pra me buscar e me levar a um hospital. Nunca vou me esquecer o que a Simone fez por mim, agradeço imensamente. 

A Simone me deixou no hospital e seguiu até a empresa, pois ela é que abria o escritório e não poderia ficar comigo. Me vi sozinha, longe de casa, em outro estado, onde não conhecia ninguém e não sabia nem o que fazer, tudo era muito novo pra mim. Entrei em desespero e comecei a chorar. Todos à minha volta ficaram me olhando apavorados, então uma das enfermeiras me levou à uma salinha privada e ficou conversando comigo. Eu estava com muito medo de perder meu bebê.

Fui atendida, a médica me examinou e disse pra eu não me preocupar que aquilo era sangramento do primeiro trimestre, dizendo ela, era totalmente normal. Tentei então seguir minha rotina de trabalho normalmente, mas confesso que estava assustada. De BH ainda fui à Brasília e depois voltei à POA na sexta-feira. Chegando em casa, contei pro Amaral o que tinha acontecido e no sábado de manhã fomos ao hospital Getúlio Vargas em Sapucaia (maldita hora que fui ali). 

Quando cheguei no hospital, mesmo tendo plano e saúde, fui atendida pior do que pelo SUS... O médico que estava de plantão me atendeu e já saiu me dizendo que se eu tava sangrando era porque eu tava abortando, e que ali naquele hospital não tinha o que fazer, porque nem ultrasom tinha, que se eu pudesse era pra ir pra Porto Alegre, já que lá os hospitais tem mais condições e que se eu tivesse abortando, eles já me faziam um curetagem na hora. Imagina ouvir isso assim à seco.... entrei em choque, comecei a chorar e o médico anda teve a cada de pau de me dizer que não tinha motivo pra eu chorar.

Saímos do Getulio Vargas direto pro Hospital Mãe de Deus em POA. Lá fiz um ecografia que identificou que eu estava com 5 semanas e 1 dia de gestação, aparecia saco gestacional mas ainda não havia embrião. A médica que me atendeu disse que isso era normal, e que inclusive muitas mulheres nem formam embrião, aí o corpo expeli normalmente (aborto espontâneo). Lá estava eu, ainda sem respostas e só tendo que esperar.

Na segunda-feira seguinte eu precisava fazer uma viagem de bate e volta em Curitiba. Fui de manhã e voltei de tarde. Na volta, o avião que eu estava (WebJet) entrou em uma zona de forte turbulência e parecia que ia cair. Foi um pavor dentro do avião, todo mundo gritando, crianças berrando, uma mulher se jogou no chão, foi pavoroso. Quando o avião finalmente aterrissou, entrei em pânico, chorei muito, estava apavorada e senti que o sangramento havia aumentado.

Corremos do aeroporto direto pro consultório da minha gineco. Chegando lá ela me disse que pelas características do que eu estava contando eu poderia estar com nível baixo de progesterona. A progesterona é um hormônio que faz com que as mulheres mantenham o bebê no útero e se estiver em nível baixo, ocorre o aborto. Como garantia, mesmo antes de sair o resultado do exame que constataria se havia baixo nível hormonal, minha gineco já me receitou uma dosagem de hormônios intravaginais e repouso absoluto. Todos o dias antes de deitar eu tinha que colocar as cápsulas de hormônio. Alguns dias depois de ter começado a usar progesterona, o sangramento foi diminuindo, mas eu ainda precisava fazer outra eco pra identificar se o embrião tinha se instalado no útero. Recorri então à Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre para fazer as ecografias com médico especializado.

No dia da segunda eco, eu estava ansiosa, querendo ver em que pé estava minha gestação. O Amaral tava quer era só sorriso esperando pela hora de ver o embrião. Pronto, lá estava o saco gestacional bem regular, com embrião instalado mas sem batimentos cardíacos. Pelo tempo de gestação que eu estava já deveria aparecer os batimentos, e a médica me disse que seria sincera comigo. Ela me falou que em situações como estas, normalmente o embrião não desenvolve e o corpo acaba expelindo, ocorrendo um aborto. Mas ela me disse também que já tinha acontecido de pacientes chegarem lá na mesma situação e dar tudo certo. Fiquei muito triste, chorei muito, pois tudo o que eu mais queria era poder ter meu bebê. Mas não desanimei. Percebi que eu precisava lutar pelo meu filho (ainda não sabia que seria menino) e que não podia pensar que daria algo errado.

Naquele final de semana era aniversário de 50 anos do meu pai e iríamos fazer uma festa. Como eu gosto muito de trabalhar com decoração, eu era a encarregada de decorar o salão, mas como poderia fazer isso se eu tinha que ficar de repouso??? Pedi então ajuda aos meus grandes amigos Eder e Vivi. Eles não sabiam de nada, mas contamos pra eles junto com a notícia de que eles seriam os padrinhos (além de nossas irmãs). Foi um momento muito feliz pra gente, mesmo com a possibilidade da gravidez não “vingar”. Mas eu não pensava assim, tinha certeza de que tudo daria certo.

Chegou então a hora da festa do meu pai, e lá pelas tantas ele apresentou um vídeo onde mostrava um pouco da sua vida, fez um discurso em homenagem à família e por fim, muito emocionado, deu a notícia a todos “Gente, eu tinha pedido pra minha filha que me desse um presente de 50 anos, e ela me deu. Eu vou ser avô. Minha filha tá grávida”. Que momento... era emoção pra todos os lados. Estávamos rodeados dos nossos amigos e todos compartilharam desta alegria com a gente. Claro que não comentamos com ninguém as dificuldades que estávamos tendo, até mesmo para que não houvesse especulação. Mas eu tinha fé e certeza que tudo estaria diferente na próxima eco.

Chegou o tão esperado momento. Era uma eco por semana e a cada semana uma angústia, mas desta vez eu acreditava que seria diferente, tanto que levei um CD para a médica gravar o exame. Eu e o Amaral entramos na sala de exame ansiosos, pois eu ainda tinha sangramento, mas pra nossa surpresa lá estava ele: um feijãozinho com 6 mm e coração com 145 bpm. Gente, eu não tinha tido emoção tão grande como aquela em toda a minha vida, nem mesmo quando descobrimos a gravidez foi mais emocionante do que ouvir o coraçãozinho dele. Aquelas batidas rápidas e fortes pareciam uma cavalaria. Foi o som mais lindo que já ouvi. Assim que a médica saiu da sala, eu e o Amaral nos abraçamos e choramos muito. Finalmente, tudo estava resolvido.

Saímos da sala de exame e já enviei uma mensagem contando a novidade, e logo começaram as ligações. Todo mundo muito feliz. Eu estava com 8 semanas, o bebê estava bem, o sangramento estava parando por causa do uso da progesterona, ou seja, tudo estava se encaminhando para a normalidade. Eu precisava continuar em repouso até cessar o sangramento, e foram 32 dias direto. Mas tudo bem, eu não me importava de ficar só deitada pelo bem do meu bebê.

Nesse período, minha mãe tirou licença do trabalho pra ficar em casa comigo. Como minha casa é um sobrado, eu não poderia em hipótese alguma descer e subir escadas, então ela ficava comigo pra me dar o que comer. Neste momento comecei a dar mais valor à minha mãe, pois vi que não se mede esforço para fazer o bem à um filho. 

Estava tudo indo bem, até que...

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A descoberta

Eu e o Amaral estamos casados há 5 anos, e desde sempre falavamos em ter filhos, mas essa vontade aguçou mesmo no final de 2007, quando ganhamos uma afilhada. A Camila entrou na nossa vida pra fazer uma mudança de verdade. Durante um ano ficamos naquela dúvida "será que tá na hora?". Então no final de 2008 resolvemos procurar um médico pra nos orientar.

Fizemos todos os exames e estava tudo bem tanto comigo quanto com ele. Recebemos então o ok do médico para começarmos as tentativas. Foi um ano e meio de tentativas e nada. Era uma frustração a cada resultado negativo. Foram muitos exames, muitas idas ao médico e sempre estava tudo ok. Resolvi então que precisava de uma segunda opinião. Optei por mudar de médico e voltei a consultar com a minha antiga ginecologista. Só tinha deixado de me tratar com ela, porque durante um período ela foi trabalhar em SP, mas assim que ela retornou, voltei a consultar com ela, afinal, ela cuidava da minha saúde desde meus 13 anos.

Já na primeira consulta ela me pediu pra fazer um exame chamado histerossalpingografia. A dor de fazer este exame é tão feia quanto o nome. É horrível, pensei que fosse desmaiar de tanta dor. Mas valeu a pena, pois depois dele, minhas trompas foram desobstruidas e logo engravidei. Quanta felicidade!

Era dia 06/05/10, eu e o Amaral compramos um teste de farmácia e assim que chegamos do trabalho, fui direto coletar a urina. Foram os 5 minutos mais longos da minha vida. Nós dois fomos juntos ver o que estava marcando. Duas linhas: POSITIVO. O nervosismo era tanto que eu nem acreditava, então saímos atrás de um outro teste, de outra marca, de outro jeito, pra ver se confirmava. Dito e feito, de novo duas linhas. 

Parecia que não tinha caído minha ficha, não sabia se ria ou chorava. Nos abraçamos e juntos choramos emocionados. No outro dia de manhã fui direto ao laboratório fazer um exame de sangue pra ter realmente a certeza. Naquele dia nem trabalhei direito, passei o dia enjoada, vomitando e muito ansiosa (os sintomas só apareceram depois do teste da farmácia, até então eu não sentia nada... tudo psicológico).

As 17 hs o resultado ficaria disponível na internet. Foi enorme a minha surpresa quando abri o laudo e lá estava escrito POSITIVO. Imediatamente imprimi 3 cópias do exame e uma delas entreguei pro Amaral assim que entrei no carro. Olhei pra ele e disse "parabéns papai" (me emociono só de lembrar). Nos abraçamos dentro do carro na frente do meu trabalho, o Amaral me fez carinho na barriga e viemos pra casa sem acreditar. Estávamos muito felizes e não víamos a hora de contar pra nossa família, mas não podia ser de qualquer jeito, tinha que ser especial. Isso foi numa sexta-feira e no domingo seguinte era dia das mães. Um ótimo momento para darmos a notícia. Eu já me sentia mãe.

Reunimos então nossas famílias com a desculpa de fazermos uma almoço para as mães. Compramos flores e colocamos o resultado do exame como cartão. Pedi para a sobrinha do Amaral filmar o momento em que nós dois estivéssemos entregando as flores para nossas respectivas mães. Quando minha mãe abriu o cartão e se deparou com a palavra POSITIVO circulada em vermelho, ela começou a gritar, me abraçar e me beijar agradecendo o melhor presente que ela poderia ganhar. Meu pai, minha sogra, minhas cunhadas e minha irma não estavam entendendo nada, até que caiu a ficha e todo mundo começou a se abraçar e chorar junto.

Foi muito emocionante. Nossas famílias nos pediam há tempos por esse bebê, principalmente a minha família, pois meus pais ainda não eram avós. Naquele dia nós comemoramos, brindamos e rimos muito. À noite fomos na casa do pai do Amaral contar pra ele e pra sua esposa. Eles ficaram muito felizes e emocionados.

Pedi para nossos familiares não contarem pra ninguém ainda. Queríamos esperar fazer uma ecografia primeiro pra saber exatamente o tempo da gestação pra daí então espalhar a notícia.

Só que na semana seguinte eu tinha uma viajem de trabalho agendada e não poderia fazer a eco. Tinha que esperar mais uma semana.
Mas mal sabia eu que durante essa viagem, começariam meus primeiros sustos...

Por que um blog???

1º) Quando me deparei com a notícia que meu bebê tinha Hérnia Diafragmática Congênita (HDC) não tinha a mínima noção do que se tratava e quando procurei informações na internet, só encontrei coisas bombásticas.

2º) Gostaria de seguir o exemplo da amiga Débie (http://ceciliabatatinha.blogspot.com/) que usa sua experiência para ajudar a esclarecer informações às pessoas que infelizmente têm que passar por esta situação.

3º) Pq quero dividir um espaço com pais que também perderam seus filhos. Só quem passa por isso pra saber como é importante o contato e troca de experiências. 

4º) Acho menos doloroso falar desse assunto aqui, pq se eu não estiver a afim de falar, é só não escrever. Agora, como sair desta situação quando me param na rua pra perguntar: "do que teu filho morreu?" ou então "mas o que aconteceu?" e ainda "ele nasceu morto?" (Algumas pessoas não tem noção de como isso machuca. E que diferença isso faz?)

Enfim, criei este blog pra contar as situações que vivi, as barreiras que meu João Pedro passou, a luta dele pra ficar do nosso lado, a nossa luta pra ter ele com a gente, as emoções que vivemos juntos, os bons e o maus momentos, ou seja, ter um espaço para expressar os meus sentimentos, desabafar, servir de exemplo, receber força, fazer uma homenagem ao grande amor da minha vida: o meu João Pedro.

Não pensem que será fácil, muito pelo contrário. Só nestes parágrafos eu já me emocionei várias vezes. Mas um dia, em oração, eu prometi ao JP que contaria pra todos que quisessem ouvir (ou ler) o quão forte ele foi e que jamais ele desistiu. Não deixo ninguém falar que ele era fraquinho, nunca, jamais. Meu filho foi muito forte e é por esta força que eu continuo vivendo.

Te amo João Pedro, vou e amar pra sempre, onde quer que tu esteja.
(...Eu não existo longe de você, e a solidão é meu pior castigo...) 

Começando...

Resolvi iniciar este blog pra contar a história de um anjo que lutou pela vida desde o dia da sua concepção.

João Pedro do Amaral da Silva é o nome deste anjo lindo, que viveu neste plano por apenas 28 horas, mas que mesmo em pouco tempo, deixou uma grande lição de vida, força e muito aprendizado para quem conviveu com ele.

Em breve iniciarei as postagens.

Até logo